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22/1/2008 - Bruce Goldsmith questiona o pensamento convencional sobre segurança de parapent

Autor: Bruce Goldsmith

Bruce Goldsmith - ICARISTICS - Cross Country no. 78, pag 22 

Todos querem parapentes mais seguros; pilotos, projetistas, fabricantes, as federações e é claro os órgãos de homologação. Eu passei dez anos como projetista lutando por um parapente o mais seguro possível e gastei centenas de horas a cada ano testando o voo dos parapentes para checar sua segurança e também para medir a reação de cada parapente nos testes de certificação. Aparentemente, a segurança em um parapente é um assunto simples. Os parapentes deveriam ser o mais estável possível e atingir os mais altos níveis de certificação. Isto soa mais do que evidente e é o que os pilotos são ensinados nas escolas por todo o mundo. Provavelmente é por isto que existe até uma excessiva atenção dada aos resultados das homologações. Entretanto minha própria experiência indica que a verdadeira segurança é muito mais complicada do que isto.  MAIS ESTABILIDADE É REALMENTE MELHOR?
Eu tenho um amigo, Robert, que aprendeu a voar num parapente que iremos chamar de "Glider X". A pilotagem era muito boa, apesar das orelhas serem muito sensíveis a colapsos, elas exigiam que o piloto estivesse sempre à frente da reação do parapente para evitar colapsos (fechadas). Se houvesse ainda que uma turbulência moderada, as orelhas iriam sofrer fechamento, o que o deixou muito nervoso no princípio, mas no final meu amigo logo aprendeu a controlar esta situação.
Ele aprendeu:
1) A sentir o quão turbulento estava o ar.
2) Como tratar fechadas.
3) Como pilotar ativamente para até mesmo evitar as fechadas. 
Robert progrediu bem e se tornou um ótimo piloto. Então ele vendeu seu parapente e comprou outro "melhor", que chamaremos de "Glider Y". Ele comprou o parapente porque se dizia que era mais estável e tinha um melhor certificado de homologação. Como prometido ele descobriu que o parapente era firme como uma rocha e nunca fechava, mas logo foi vendo que isto não era tão bom como ele esperava. A desvantagem era que o parapente lhe passava pouquíssima informação de como estava o ar. Eu mesmo conheço parapentes similares que são extremamente sólidos. A reação inicial da maioria dos pilotos a estes parapentes é bem positiva; "UAU, esse parapente é fantástico, é super firme e eu nem preciso me preocupar com fechadas mais," é a reação normal mesmo antes de pagar. Mas tome cuidado, isto está longe da realidade. Alguém que aprenda a voar em parapentes tão "firmes" vai inevitavelmente ter mais dificuldades para sentir turbulências. Ele voa numa área de turbulência leve e nada acontece. Então um dia, uma paulada daquelas bem fortes, pega ele de jeito e o piloto tem seu primeiro colapso. 80% da vela desmontam porque está muito turbulento e pelas probabilidades ele provavelmente vai estar perto do chão, porque sua sorte já está nas últimas. O piloto não sabe o que o atingiu. Ele nunca desenvolveu boas habilidades de pilotagem ativa, nem sabe como reagir num colapso forte. Este piloto tem que ser bem sortudo para sobreviver a tal acidente sem se machucar.

O ponto é que lá fora em algum lugar, está escondido um pedaço de turbulência forte demais para qualquer parapente. Mesmo se seu parapente for super estável, não poderá resistir a todas as turbulências. Agora faça esta comparação com o piloto que comprou o "Glider X". Este piloto recebe mais informações de sua vela, então ele sempre sabe quando está voando numa área turbulenta, e sentindo sua vela ele pode reagir aos seus movimentos e "surfar" pelas pancadas. Ele já experimentou fechadas antes e pode voar ativamente para evitar colapsos na vela, e ele pode instintivamente controlar sua vela quando ela fecha. Ironicamente, as chances de sobrevivência deste piloto quando encontrar um "dust devil" na aproximação são consideravelmente melhores do que nosso piloto que comprou a vela firme como rocha.

É claro que eu não estou afirmando que a estabilidade de um parapente não é importante. Estou simplesmente tentando dizer que estabilidade não é substituto para a habilidade do piloto. Se você está confiando na estabilidade da sua vela para evitar colapsos então realmente deveria estar voando somente em ambiente controlados, onde turbulências fortes não acontecem; por exemplo, no ambiente de escolinha guiado por rádio, ou durante condições calmas na manhã ou no fim de tarde.

CERTIFICAÇÃO NÃO É A CONDIÇÃO PRIMÁRIA PARA SEGURANÇA
Certificação mede a recuperação de um parapente após certos incidentes de voo. Obviamente, a certificação é importante, e muito do enorme processo criado na segurança dos parapentes nos últimos dez anos, veio por causa dela. Entretanto a capacidade de um parapente se recuperar de problemas não é garantia real de um voo sem incidentes.

Esta ambigüidade sempre me lembra das filosofias divergentes dos dois maiores fabricantes de carros na Suécia em 1980, Saab e Volvo. Volvo fabricava seus carros para proteger os motoristas e passageiros em caso de acidente. Seus carros se tornaram quase como tanques, fores e pesados, e nos testes de acidente os bonecos sempre se saiam bem. Se você for ter um acidente, é melhor estar num Volvo. Mas as estatísticas de acidentes na Suécia, não refletiam o mesmo. Motoristas de Volvo sofriam mais ferimentos do que motoristas de Saab, por uma simples razão: os Saab tinham menos acidentes em primeiro lugar! Os carros Saab eram mais leves, então paravam numa distância menor, e devido ao seu menor peso eles podiam evitar colisões em menores distâncias. Saab também se concentrava em melhorar a visibilidade do motorista ao invés de cercá-lo com uma gaiola super projetada, o que melhorava as reações em situações de acidentes. Na prática os carros Saab eram mais seguros, ainda que os certificados dos testes mostrassem os oposto.
ENTÃO QUAL A RELAÇÃO DISTO COM PARAPENTES? Parapentes também têm certas características que os tornam mais fáceis de serem pilotados e, portanto mais capazes de evitar acidentes. Esta lista não está de forma nenhuma completa:
* Boa pilotagem com baixa tendência de giro
* Boa capacidade de peso (faixa de peso)
* Capaz de voar rápido
* Baixa velocidade de stall
* Transmite informações sobre o ar ao piloto
* Boa performance de planeio 
Estas são as que eu chamo de características primárias de segurança num parapente. A homologação cobre alguns destes pontos, mas não são estes os que dão a um parapente as melhores notas de certificação. As homologações se concentram mais nas reações do parapente quando um problema acontece. Isto é claro muito importante, mas não é o ponto mais importante na segurança. É por isto que você pode ter dois parapentes com o mesmo nível de certificação, um com um bom registro de segurança e o outro com um péssimo registro de segurança.
Por favor, não olhe somente para os nível de certificação e os considere como garantia de segurança.
SEGURANÇA É A RESPONSABILIDADE DO PILOTO
Eu acho que existe uma tendência dos pilotos hoje em dia, de sentir que podem se proteger comprando um parapente DHV1, um capacete integral, uma selete com uma enorme proteção, dois protetores laterais e enormes botas; em outras palavras adotando a "filosofia Volvo".
Os pilotos se sentem como um tipo de super-homem invencível em todo este equipamento de segurança. O treinamento de um piloto não é fácil nem barato, e não existem atalhos. Você também precisa de condições de voo bem particulares que lhe permitam ganhar experiência. Isto é frequentemente muito difícil - principalmente em países com climas ruins, então pode ser um verdadeiro problema adquirir experiência quando está ventando muito ou chovendo demais! A experiência do piloto é a chave. A responsabilidade termina em você, o piloto. 
Bons Voos !  



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